O gosto amargo dos impostos
Gazeta Mercantil - 25/7/2005
Ricardo Viveiros
Continuamos nos tempos
em que os fortes dominavam os mais fracos.
No remoto tempo em que o mundo era dividido apenas entre grupos de humanos
selvagens, os tributos surgiram como forma de render dependência. As tribos
lutavam entre si e os perdedores entregavam suas riquezas aos vencedores.
Montar grandes e equipados exércitos sempre acabou por aumentar a carga
tributária dos países, porque isso acabaria por redundar em mais riquezas
fruto das lutas e conquistas. Os governantes, já na Idade Média, exigiam
"contribuições" e "doações" de seus súditos, disfarçando o odioso nome
"tributo". O objetivo foi sempre o mesmo, amealhar riqueza sem o compromisso
de contrapartida. E financiar os governantes.
O primeiro tributo sobre a pessoa física foi criado pelo Império Romano.
Aliás, foi com seus exércitos bem estruturados, portanto imbatíveis, que
Roma Antiga construiu seus imensos e ricos palácios. Eles criaram muitos
tributos: sobre o patrimônio imobiliário, herança, comércio, produção
agrícola, trânsito de pessoas e de mercadorias. Naquele tempo, todos pagavam
tributos: os pobres por existirem e os ricos pelo patrimônio líquido.
Na Europa dos séculos XV e XVI, fatores como as conquistas ultramarinas, as
guerras e o surgimento do mercantilismo acabaram por fortalecer o aumento de
tributos. Cada vez mais, o cidadão via-se obrigado a suprir e financiar os
governos. E, claro, sempre sem nenhuma obrigatoriedade de retorno em
qualquer tipo de benefício.
Se houvesse, era por generosidade do Poder. A clássica escola econômica de
Adam Smith, de maneira cuidadosa e responsável, estabeleceu princípios para
os tributos, esquecidos no Brasil. O mais importante deles: "O imposto não
deve arruinar o povo".
A Inconfidência Mineira, entendida como movimento pela libertação do Brasil,
foi, a rigor, o primeiro protesto da sociedade brasileira contra a já pesada
carga tributária imposta pelo colonizador lusitano.
Há três tipos de tributos previstos na Constituição brasileira: o imposto, a
taxa e as contribuições voltadas às melhorias de caráter social. Todos
obrigatórios. E um detalhe, também sem nenhum compromisso de contrapartida
ao contribuinte.
Neste momento, numa crise de desprendimento tributário, o governo federal
está lançando um "pacote de bondades" que desonera vários setores da
economia brasileira. E o simples cidadão, quando será lembrado com justiça
tributária? O Imposto de Renda da Pessoa Física, por exemplo, incide sobre o
salário. Esse é o problema, "Pessoa Física"... Se fosse da "Pessoa Mental",
talvez se aplicasse ao menos sobre a verdadeira renda líquida - já que
poderia ser fruto de um pensamento no mínimo coerente e realista. Não é. Não
se pode abater tudo o que foi, honesta e comprovadamente, gasto com
educação, saúde, cultura - alguns direitos do cidadão e deveres não
cumpridos pelo Estado brasileiro.
Um dos mais absurdos exemplos disso está nos empregados domésticos, cujos
salários e benefícios os patrões não podem abater no seu Imposto de Renda.
Você gera empregos para cozinheiras, arrumadeiras, babás, motoristas,
jardineiros e outros profissionais que, além dos salários e benefícios
recebidos, ainda moram e comem nas casas de seus patrões, e não pode abater
no seu imposto essa importante contribuição social.
O mundo evoluiu? Talvez. Mas no aspecto tributário continuamos nos tempos
selvagens, em que os mais fortes dominavam os mais fracos e esses, coitados,
pagavam com suas "riquezas" o alto preço da derrota demonstrando dependência
aos poderosos. E sem poder exigir nada em troca...
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